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Base Curricular Centralizada: a quem interessa?

A sociedade americana se depara mais uma vez com uma discussão de proporções nacionais que alterará, sem sombra de dúvida, o futuro da nação. Esta discussão gira em torno de uma proposta apresentada em conjunto pelo governo de Obama e por Fundações milionárias (como a organização “Bill & Melinda Gates Foundation”) que pretende uniformizar setores inteiros da educação norte-americana.

O projeto, conhecido como “Common Core State Standards Iniciative”, foi apresentado ainda no ano de 2009 e, desde então, centenas de grupos de pais tem se organizado para que tal proposta legistativa não seja aprovada em seus estados.
Com a desculpa de que o diploma de High School (o equivalente ao Ensino Médio brasileiro) por si só não garante uma boa formação ao estudante, o chamado Common Core exigiria que uma série de conhecimentos previamente determinados pela administração central – sem a mínima possibilidade prática de interferência dos pais e da comunidade escolar – fosse cobrada nas escolas, as quais, na prática, se tornariam meros cursinhos vestibulares prontos para preparar o aluno para o teste do ano corrente.
É de se observar que esta piora dos níveis educacionais que agora está sendo utilizada como desculpa para a implementação do Common Core aumentou justamente na medida em que todo o processo educacional americano foi sendo centralizado e tomado pelo Estado, através da publicação de regulamentos e de ações que mais se assemelham à boa e velha chantagem, como por exemplo, oferecimento de ajuda financeira às escolas desde que elas se submetam às regras emanadas pelo governo federal.

Para qualquer um que leve em conta o papel deletério que o Estado desempenhou nas últimas décadas no campo da educação nos Estados Unidos fica difícil acreditar nas boas intenções daqueles que, depois de encararem o resultado de suas próprias ações, propõem como solução dobrar a receita que a realidade já tratou de invalidar. Mas, se não é o desejo de melhorar a educação das crianças, o que mais poderia mover os proponentes e ativistas do Common Core? O poder, nada além disso. Quando estudamos o crescimento do aparato estatal e as tentativas de controle da população percebemos que em ambos os casos o controle total da educação – e para que isto seja efetivamente feito, é necessário riscar do mapa qualquer influência que a família possa ter sobre as crianças – é uma meta que não pode ser ignorada, pois qualquer projeto de tomada de poder será derrotado enquanto não controlar o modo de pensar da população.

Alguém poderia objetar que os padrões requeridos pelo Common Core estão restritos apenas às disciplinas de Matemática e Língua Inglesa e que, portanto, não haveria possilidade de operar tão vasto projeto de engenharia social a partir de apenas duas áreas. Em resposta a isto, podemos oferecer as corretas percepções da maioria dos pais americanos, que entenderam que a uniformização destas duas matérias é só o começo de um projeto que tem como objetivo a médio prazo determinar o que TODAS as crianças em TODAS as disciplinas precisam responder para passar nos testes.

A partir deste problema enfrentado pelas famílias americanas, poderíamos fazer algumas perguntas pertinentes à realidade brasileira: o que será que o Enem, que era vendido como a prova para acabar com os vestibulares (e que acabou se transformando no vestibular dos vestibulares) tem a nos dizer a respeito de testes centralizados e obrigatórios para a entrada em praticamente todas as universidades? Enquanto um aluno pode ter um bom dia e ir bem, por exemplo, no vestibular da Unicamp, e infelizmente outro dia não ir tão bem assim no vestibular da UFMG, tal possibilidade não existe quando somente um único exame é usado para condicionar o ingresso ao nível superior de ensino. Por uma questão de lógica, obviamente fraudar um exame que dá acesso a praticamente todas as universidades brasileiras é muito mais lucrativo para quadrilhas especializadas neste crime, que viram, de uma hora para outra, seu público se transformar em dezenas de milhões de alunos.

Ainda sobre o ENEM, o que dizer das provas altamente enviesadas ideologicamente, que praticamente obrigam as escolas – a maioria delas preocupada com os níveis de aprovação a serem anunciados nas próximas peças publicitárias – a ensinar aos alunos a decorar o discurso politicamente correto, sob risco de não se conseguir a nota exigida pela prova de redação?

Além destas questões, não gostaria de terminar este artigo sem lembrar que também nós temos o nosso “Common Core tupiniquim”, que são as Bases Currilares Nacionais, mais uma tentativa do MEC de aparelhar ainda mais a atividade educacional no Brasil, de um modo ainda mais direto e descarado do que o projeto americano. Oportunamente abordaremos esta questão de modo mais aprofundado aqui no site, mas para o momento gostaria de deixar algumas questões a respeito das chamadas “Bases Curriculares Nacionais”: por que centralizar ainda mais a educação brasileira, já tão asfixiada pelo MEC? Com que legitimidade o Estado pode se intrometer na educação desejada pelos pais através da escolha da escola? Por que centralizar em Brasília uma decisão que deveria estar, o máximo possível, perto dos pais? Um pai pode muito bem discutir o plano curricular da escola de seu filho na reunião de começo de ano, mas provavelmente se verá impossibilitado de viajar até Brasília e marcar uma reunião com burocratas a respeito do que estão ensinando aos seus filhos.

Infelizmente, ao recordar todas as tentativas de riscar do mapa o papel dos pais na educação dos filhos feitas por este governo federal, fica difícil de acreditar que no caso das Bases Curriculares Nacionais, a exemplo do Common Core, o que se almeja é uma melhoria na educação de nossos alunos, sendo esta uma desculpa pra lá de esfarrapada. É o poder,o poder sobre os nossos filhos, o poder às custas da anulação e do engessamento das famílias o que querem os implementadores da Base Curricular Nacional.

2 Comentários

  1. Perfeito! Os interessados só querem moldar as mentes dos educados com mais ideologia,e infelizmente a família, maior interessada, está alheia a essa problemática.
    Como professor sinto na pele o descaso do Estado e da família na formação das crianças.

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